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Xilografia

A Escola de Xilografia do Horto

A Escola de Xilografia do Horto nasceu em 1940, sob a direção de José Camargo Cabral, com a intenção de formar xilógrafos impressores. Foi escolhido como professor o alemão Adolf Köhler (1882-1950), que estava no Brasil desde 1927, e tinha uma sólida experiência em xilografia. Jovem, fez sua formação na Alemanha e estágios de aperfeiçoamento na França e na Hungria.

Os primeiros alunos da escola do Horto foram recrutados dentre os funcionários do então Serviço Florestal, hoje denominado Instituto Florestal, que tivessem alguma aptidão para o desenho. A artista e pesquisadora Rosita Gouveia, que na década de 1980 estudou o legado da escola do Horto, registra também que alguns moradores locais se ofereceram como alunos procurando profissionalização.

A Escola funcionou regularmente até 1945, quando em 1946 sofreu um baque com a debandada de vários alunos que foram classificados como “trabalhador braçal” – a mais baixa remuneração do Serviço Florestal, quando todos esperavam ser “desenhistas”, a carreira profissional que desejavam. Apesar de tudo, a escola funcionou até 1950 quando o mestre morreu, formou alguns gravadores: José Cruz, Waldemar Moll, que trabalhou nessa profissão na revista “Chácaras e Quintais” e Itajahy Martins foi o único aluno que seguiu uma carreira artística, rebelde às técnicas de ensino da escola, foi um grande divulgador da xilogravura e o primeiro titular de uma disciplina de gravura no Brasil.

Köhler também influenciou a gravura de Lívio Abramo (1903-1922). Embora ele não tenha sido aluno na escola do Horto, recebeu algumas aulas de gravação em topo, bem como de preparo das matrizes. Em 1950 quando ganhou o prêmio viagem no Salão Nacional de Belas Artes usou justamente madeiras preparadas pelo alemão. Reproduzimos aqui depoimento do artista, dado em 10.03.86:

“O meu aprendizado com o Köhler na gravura de reprodução resultou muito importante para mim. Não como linguagem técnica simplesmente, mas aperfeiçoando a estética dos efeitos gráficos. Eu já conhecia a madeira de topo, mas fiz esse tipo de gravura incentivado pelo Köhler. Eu era admirador da gravura de reprodução do século passado, que não é só de “reprodução”, mas também artística em grau extremo. (…)

O Köhler era uma pessoa que eu me lembro com muito carinho, com muito respeito e me ensinou muitas coisas que eu, gravador incipiente, não sabia. Ele morreu esquecido e o seu trabalho que poderia ser tão importante do ponto de vista cultural, assim como a permanência de uma técnica artística tão rara, se perdeu. Foi uma pena.”

É importante ressaltar que no caso do Horto, todas as matrizes são de guatambu rosa, uma árvore encontrada desde o sul da Bahia até o Rio Grande do Sul e que possui uma madeira muito dura com fibras unidas e textura firme, o que permite um bom alisamento e a obtenção de linhas finas no desenho. Köhler estabeleceu que esta era a melhor substituta ao buxo (Buxus sempervirens) que se usava na Europa para a xilogravura de topo.

A Técnica
A Xilografia é uma antiga técnica de origem chinesa, ao que tudo indica tendo seu inicio no século II, onde o artesão grava na madeira a imagem que pretende reproduzir, utilizando-a como matriz e possibilitando a reprodução de diversas imagens idênticas sobre papel ou outro suporte adequado.

A gravação da figura ou forma que se pretende imprimir é feita com ajuda de instrumento cortante (como o buril), tendo consciência de produzir uma imagem invertida (espelhada) aquela que se pretende obter no final. Uma vez concluída a gravação, usa-se um rolo de borracha embebido em tinta, tocando só as partes elevadas da matriz e aí deixando tinta. Sobre a matriz já entintada, é colocada a folha de papel e, através da pressão, a tinta passa para o suporte, no caso da escola era usada uma prensa, mas também é possível fazer a impressão manualmente, com a ajuda de uma colher e pau. O final do processo é a impressão em papel ou pano especial, que fica impregnado com a tinta, revelando a figura.

A xilogravura se registra no ocidente desde o século XIV, sendo a primeira datada em 1423, uma imagem de São Cristóvão, conservada até os dias atuais na Inglaterra. Com o tempo, as gravuras se tornaram essenciais para educação e divulgação de descobertas, já que elas ilustravam o conhecimento humano, como desenhos técnicos de máquinas, inventos, arte, fauna, flora e retratos. Porém a xilogravura passa a ser menos utilizada com o advento da gravura em metal, já que esta apresentava maior semelhança e detalhes.

No final do século XVIII Thomas Bewick teve a ideia de usar uma madeira mais dura como matriz e marcar os desenhos com o buril, instrumento que dava uma maior definição ao traço, o que possibilitou uma “segunda chance” para a técnica, mas que logo volta a ser considerada antiquada com a invenção dos processos de impressão a partir da fotografia.  A partir do final do século XIX, a xilogravura faz seu “renascimento”, mas sendo utilizada principalmente como arte.

No Brasil, se estabelece que a gravura começa em 1808 com a vinda da família real, porém Antonio Costella, grande advogado, jornalista, professor, escritor e artista diz em seu livro “Gravura e Gravadores em Madeira”, que a técnica no país surge com os índios, já que usavam matrizes em madeira para pintar o corpo ou a roupa. Com a liberação das gráficas, em 1823, começaram a surgir os profissionais necessários para ilustrar livros, jornais e propagandas, mas logo se instalou a litografia e a gravura em metal., em 1826 já havia pelo menos quatro prelos litográficos no Rio de Janeiro, e a xilogravura ficou limitada a impressos baratos, carimbos e eventuais ilustrações em jornais.

Fonte: Maria Pinto  e Maura de Andrade em http://dialogos-xilogravuras.blogspot.com.br/p/historia-e-tecnica.html