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30/11/18 08:00

Espetáculo “1931” encanta visitantes do Museu Florestal Octávio Vecchi

Peça teatral já foi vista por mais de 600 pessoas e conta a história do idealizador do Museu

As cortinas se abrem, as luzes acendem e a magia do teatro está no ar! O grupo de teatro que desenvolve trabalhos artísticos sem fins lucrativos “O Tempo Tem Vida” apresenta “1931”. A peça conta a história do idealizador do Museu Florestal Octávio Vecchi, localizado no Parque Estadual Alberto Löfgren, conhecido como Horto Florestal, na zona norte de São Paulo.

As apresentações ocorreram desde agosto em dias de semana e aos finais de semana, de acordo com a demanda do público, na sala Antônio Oppido, localizada no próprio Museu. A ideia é que depois do show os espectadores visitassem também o acervo do local.

A iniciativa da atração veio da estagiária do Museu Florestal Beatriz Carrera, que dirigiu o espetáculo.  “Assim que eu comecei a trabalhar no museu tive que estudar sua história para fazer as monitorias para o público. Me apaixonei. Mas percebi que a maior parte das pessoas não a conhecia. Então eu juntei a prática do teatro, que estudo, e o que aprendi sobre o Octávio Vecchi. A peça surgiu basicamente da paixão e a necessidade de mostrar isso às pessoas”, conta a jovem.

Natália Ferreira, responsável do Museu comenta mais sobre o envolvimento da estagiária com a história de Octávio Vecchi, fundador do Museu Florestal. Além da importância de trabalhos publicados sobre o mesmo. “Tudo começou porque ela começou a frequentar o museu como estagiária […] então teve esse conhecimento do contato com a gente, assistindo as monitorias, dos textos que já existem e os trabalhos publicados do Octávio Vecchi”. Um deles é a dissertação de mestrado de Elisabete Priedols, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie no curso de Educação, Arte e História da Cultura “Ela conseguiu muita coisa da biografia dele”, complementa. Natália também ressalta que apesar dos trabalhos, há muita informação faltando na biografia de Vecchi, como a de sua esposa Serafita, irmã de Navarro de Andrade, sendo uma “criação mais livre do grupo de teatro, da diretora e dos atores”.

A responsável pelo Museu também ressalta os benefícios da atração, que vem atraindo grande público. “Recebemos um grupo de idosos e teve uma apresentação especial […] depois da apresentação do teatro as pessoas sobem para visitar o museu. E nessa hora a monitoria é diferente, porque as pessoas já vêm com dúvidas. Então estamos percebendo que público já chega com um interesse diferente com um olhar mais curioso na hora de conhecer o espaço”, revela Natália.

A apresentação já foi vista por mais de 600 pessoas e conta com personalidades fundamentais para o desenvolvimento do museu e do próprio Instituto Florestal, Octávio Vecchi e Edmundo Navarro de Andrade. Natália também fala um pouco sobre a relação dos dois pesquisadores. “Eles teriam se conhecido na Universidade de Coimbra entre 1903 e 1904.  Em 1911 Navarro de Andrade assume o cargo de diretor do Serviço Florestal do estado de São Paulo, que hoje é o Instituto Florestal, tendo que se afastar das suas funções na Companhia Paulista de Estradas de Ferro. No mesmo ano Octávio Vecchi vem pro Brasil a convite do mesmo, que provavelmente queria trazer uma pessoa de confiança para , já que os dois haviam estabelecido uma amizade muito profunda”, explica.

No próximo final de semana, dias 01 e 02 de dezembro, acontecem as duas últimas apresentações do ano, às 14h. Confira o endereço na página do Museu Florestal.

EDMUNDO NAVARRO DE ANDRADE

Nascido em 2 de janeiro de 1881, em São Paulo, o jovem Edmundo Navarro de Andrade foi para Coimbra, em Portugal para estudar engenharia agrônomica na Escola Nacional de Agricultura, onde passou seis anos.

Ao se formar, retornou ao Brasil em setembro de 1903, e conheceu o novo projeto da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que tinha o objetivo de estimular o reflorestamento e a cultura florestal no estado ao longo das linhas de trem. Navarro se candidatou para administrar o departamento e em dezembro do mesmo ano foi escolhido por Adolfo Pinto para ser Diretor do Horto Florestal a ser instalado a 8km de Jundiaí.

Edmundo foi responsável por pesquisar qual espécie florestal seria a melhor e mais adequada para o reflorestamento das áreas desmatadas, para a construção da ferrovia e para o fornecimento de madeira e carvão necessários a sua manutenção.

Estudou ao todo 95 espécies nativas e exóticas diferentes, comparando tempo de crescimento, adaptação e durabilidade da madeira. Até chegar no eucalipto. Espécie exótica, originaria da Austrália, inicialmente foi implantada no Brasil por Alberto Löfgren. Para uma companhia de estrada de ferro, que usava a madeira como combustível, postes, trilhos e etc, era necessário plantar árvores cujo crescimento deveria se dar em um período curto de tempo. Por isso a escolha de Navarro, sendo a mais adequada e interessante economicamente para o reflorestamento que se pretendia fazer.

Em 1906, a Companhia Paulista adquiriu terras em Boa Vista, próximo da cidade de Campinas, e em 1909 cerca de mais de mil terras em Rio Claro aumentando as plantações. Foi em Rio Claro inclusive que Navarro instalou a sede do Serviço Florestal da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, pois “nesse período, a Companhia já havia resolvido transformar o serviço em departamento autônomo”, conforme pesquisa tese de mestrado de Augusto Jeronimo Martini.

Edmundo fez várias viagens pela Europa, Estados Unidos, África e Ásia, em uma delas conheceu Joseph Henry Maiden em Sidney na Austrália, o maior especialista em eucalipto do mundo. O botânico reconheceu os estudos de Navarro e colocou a sua disposição o chefe do Serviço Florestal da Nova Gales do Sul, estado do país, o que enriqueceu e contribuiu em muito para as pesquisas do cientista.

Publicou várias obras sobre suas descobertas e viagens, como a “Cultura do Eucalipto” em 1909 a “Utilidade das Florestas” em 1912 e um dos seus principais e último trabalho “O Eucalipto” em 1939.

Além do cargo de Chefe Florestal do Serviço Florestal da Companhia Paulista, Navarro também foi Secretário da Agricultura do Estado de São Paulo entre o final de 1930 e junho de 1931. Além de outros encargos, que Martini aponta, como “citricultor, entomologista, diretor da Companhia Florestal Fluminense, diretor da Companhia Agrícola de Imigração e Colonização, gerente da Fazenda Irondê, presidente do Conselho Florestal do Estado, membro do Tribunal de Tarifas, entre outros”. De 1911 a 1916 foi diretor inclusive do Serviço Florestal do Estado de São Paulo, que hoje é o Instituto Florestal.

Edmundo Navarro de Andrade faleceu em dezembro de 1941 após se submeter a uma cirurgia de próstata. Em 1956 foi homenageado pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro pelos relevantes serviços prestados em benefício do reflorestamento no Estado de São Paulo, recebendo a medalha comemorativa da Campanha de Educação Ambiental desenvolvida pelo Estado.

O Horto Florestal de Rio Claro, onde era a sede do Serviço Florestal administrado por Navarro, hoje recebe o nome do próprio e foi transformado em unidade de conservação de uso sustentável. A Floresta Estadual Edmundo Navarro de Andrade (FEENA) possui 2.230 hectares, o Museu do Eucalipto que contém os 39 anos de pesquisa do cientista em seu acervo, além do Solar Navarro de Andrade, casa do pesquisador que foi tombada como patrimônio histórico.

OCTÁVIO VECCHI

Octávio Felix Rabello de Andrade Vecchi nasceu em Lisboa, Portugal em 22 de novembro de 1878.

Em 1892 conclui os estudos no Colégio Luso – Brasileiro e em seguida faz um curso especializado em línguas e matemática. Até que se matricula no Instituto Agronomia em Lisboa se formando em engenharia agrônoma em 1902. No ano seguinte inicia o doutorado na Escola Nacional de Agricultura na Universidade de Coimbra, onde teria conhecido seu amigo e futuro parceiro de trabalho Edmundo Navarro de Andrade.

Após defender sua tese “A Pasteurização dos Vinhos” e terminar o PhD em Coimbra, Vecchi retorna para Lisboa, e trabalha em diversas instituições científicas, como “Laboratório de Análises Químicas e Físicas”.

Em 1911 recebe um convite de Navarro de Andrade para vir ao Brasil afim de trabalhar como técnico do Serviço Florestal da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Chegando no país Octávio encontra o ambiente perfeito para aperfeiçoar seus conhecimentos científicos onde teve uma grande atuação e se especializou em silvicultura. Além dos conhecimentos técnicos, Vecchi também era um artista, desenhava e pintava.

Vecchi e Navarro têm inúmeros trabalhos publicados em conjunto, como o livro “Os Eucalyptos: Sua Cultura e Exploração”, sendo ambos membros correspondentes do Museu Nacional do Rio de Janeiro e da Sociedade Nacional de Geografia, de Washington, DC.

Em 1918 ele foi nomeado diretor do Horto Florestal de Loreto, localizado no munícipio de Araras, onde estabeleceu residência e realizou diversos estudos, além de reunir uma coleção de amostras de madeiras. Era o começo do Museu Florestal.

Em 1927 o pesquisador ganhou cidadania brasileira e foi admitido como Diretor Geral do Serviço Florestal do Estado de São Paulo. Assim que tomou posse deu início a criação e construção do Museu Florestal. Trouxe do Museu do Eucalipto a ideia de amostras de uma coleção das árvores paulistas, trabalhadas em pranchas. Vecchi também detalhou as espécies de madeira que seriam utilizadas nos assoalhos e forros do piso superior do edifício, desenhos, plantas, descrições arquitetônicas.

O museu foi inaugurado em 1931. Importante seção de pesquisa científica, abrigou laboratório de meteorologia, de fotografia, herbário e xiloteca do Serviço Florestal, atual Instituto Florestal.

Octávio Vecchi morre em 1932 aos 53 anos deixando quatro filhos Maria Cristina, Maria Beatriz, Maria Luíza e Nuno Octávio Vecchi.

 

Fotos: Acervo “O Tempo tem vida”

Mais informações: Tel. (11) 2231-8555 / Ramal 2053