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09/03/18 13:02

Área de Mata Atlântica degradada pela bananicultura tem regeneração natural após 8 anos

Pesquisa realizada na Estação Ecológica Juréia-Itatins, em Miracatu (SP), revelou grande riqueza de espécies e densidade populacional, bem como a erradicação quase total da espécie exótica

Foto: Luiz Carlos Libório

Estudo realizado por pesquisador do Instituto Florestal (IF) em área de Mata Atlântica degradada pela bananicultura revelou que após 8 anos de abandono, a vegetação nativa se recuperou naturalmente. A área, localizada na Estação Ecológica Juréia-Itatins, em Miracatu/SP, apresentou grande riqueza de espécies, alta densidade populacional e as bananeiras foram erradicadas quase em sua totalidade. A pesquisa tem a autoria de Claudio de Moura do IF e do professor da Universidade de São Paulo (USP) Waldir Mantovani.

A banana é uma espécie exótica, ou seja, não é nativa da Mata Atlântica, sendo originária do continente asiático. Os pesquisadores queriam saber se ocorreria a regeneração natural da floresta nativa após a interrupção da atividade agrícola e se o impedimento de atividades humanas seria uma alternativa técnica para recuperar áreas degradadas pelo cultivo da banana. A pesquisa também teve como objetivo verificar se esta regeneração seria capaz de erradicar as bananeiras.

O estudo foi realizado em 1250m² defragmentos de uma área degradada de 4,02 hectares da Unidade de Conservação (UC). A bananicultura foi introduzida no local em 2005 e manejada até 2007, quando a área foi abandonada. O estudo teve início após oito anos de regeneração, em novembro de 2014, mas o monitoramento de perturbações externas pela atividade humana (roçadas, uso do fogo, soltura de gado, etc) já estava sendo realizado desde 2008. Entre 2014 e 2015, foram realizadas 13 expedições nas quais foram realizados levantamentos de campo com coleta de material botânico para caracterização da vegetação da área.

Os pesquisadores fizeram um levantamento das espécies ali presentes. Foram registrados nos fragmentos estudados 1.444 indivíduos, sendo 1.326 vivos pertencentes a 59 famílias botânicas e distribuídos em 74 gêneros e 149 espécies. 19 foram identificadas no nível de família e 18 de gênero. Não foi possível a identificação em 17 plantas devido à dificuldade de coleta de material e, portanto, foram consideradas indeterminadas.

Além da diversidade de espécies, o estudo mostrou uma grande densidade populacional na área. “A densidade absoluta obtida foi 10.608 indivíduos por hectare, bastante alta pra uma área em regeneração natural”, explica o pesquisador Claudio Moura. A Resolução SMA nº 32/2014, que estabeleceu os critérios para avaliação de projetos de restauração, considera adequado se uma área com 10 anos de restauração ecológica possua acima de 2000 indivíduos por hectare.

Os resultados da pesquisa apontam que a interrupção da atividade agrícola na UC possibilitaram o processo de regeneração natural. Deve-se considerar as condições da área estudada, como a proximidade a remanescentes florestais bem conservados. Deste modo, a regeneração natural é uma forma promissora de recuperação ambiental em condições semelhantes.

A pesquisa está publicada na Revista do Instituto Florestal, volume 29, nº1. Clique aqui para ler o artigo.


Bananeiras erradicadas naturalmente em quase sua totalidade
Segundo relato de agricultores da região e observações de campo realizadas ao longo dos últimos 10 anos (agora ratificadas por este trabalho), foi apurado que de seis meses a um ano, aproximadamente, a vegetação regenerante ultrapassa as bananeiras em altura e provoca um sombreamento que interfere no desenvolvimento da cultura exótica, que vai sendo eliminada naturalmente e dando lugar a uma formação florestal secundária.

“Isso ocorre porque como cultura agrícola a banana é muito suscetível a pragas e depende de manejo e tratos culturais para produzir, tal como capina, desbaste e adubação”, explica Moura. O pesquisador cita a broca-do-rizoma, praga comum da bananicultura, em que larvas de besouros Cosmopolites sordidus se alimentam do rizoma, construindo galerias em toda sua extensão, enfraquecendo o desenvolvimento e provocando a morte das plantas. “Na região de estudo efetuamos em 2014 levantamento para avaliar a contaminação pela broca-do-rizoma das bananeiras, em área com as mesmas condições e vizinha da área estudada. Verificamos que 90% dos indivíduos estavam infestados com a broca interferindo no desenvolvimento das plantas. Ou seja, quando uma área de bananal deixa de receber tratos culturais, é isolada de perturbações externas e situa-se próximo a remanescentes florestais bem conservados tem grande possibilidade de se recuperar através da regeneração natural da vegetação nativa”, conclui Moura.

Processo de alteração da paisagem ao logo dos anos


Cada caso é um caso

Em reportagem publicada em fevereiro na Agência Fapesp sobre artigo da pesquisadora do IF Giselda Durigan, é defendido que o Cerrado, uma vez degradado, não se regenera naturalmente.

No Cerrado o componente herbáceo é predominante e mais biodiverso do que o florestal e representa quatro quintos da biodiversidade de plantas desse Bioma. Assim, sua retirada para implantação da agricultura (normalmente monocultura que usa mecanização) destrói totalmente o sistema radicular das plantas impossibilitando sua recuperação. Ainda assim, Giselda afirma na reportagem que a pecuária não destrói totalmente uma área de cerrado como ocorre com a agricultura.

Claudio Moura explica que assim como o Cerrado, a Floresta Ombrófila Densa Submontana é bastante resiliente e no caso que estudei em Miracatu não houve mecanização para implantação da bananicultura, e isso contribuiu para que o processo de regeneração natural fosse tão bem sucedido, além de outros três fatores : a interrupção dos tratos culturais e o abandono da área; isolamento de perturbações externas (gado, roçadas, fogo e outros distúrbios); proximidade a remanescentes florestais bem conservados, que funcionam como fontes de sementes fundamentais para a regeneração.


Entenda o que é processo sucessional

Em qualquer terreno não ocupado por vegetação estabelece-se uma condição de vazio ecológico. Essa disponibilidade faz surgir plantas para colonizar esse espaço, ao longo do tempo, as espécies vão se substituindo, cada uma alterando o ambiente para a espécie seguinte. A esse processo, em que ocorre a mudança da vegetação em uma mesma área, é dado o nome de sucessão.

A pesquisadora científica do IF Silvana Souza explica que quando o processo de sucessão começa com uma “comunidade vazia”, portanto sem nenhuma planta, é denominado de sucessão primária, pois leva à formação e colonização da vegetação sobre um solo recém-formado. Quando há uma vegetação estabelecida, e essa é totalmente removida por ação humana para uso temporário (corte raso de floresta para agricultura, por exemplo), a recolonização das plantas somente irá ocorrer após a interrupção daquele uso. Esse processo de reocupação da comunidade de plantas em um local em que elas já habitavam é denominado de sucessão secundária.

Pesquisador científico Claudio Moura e o geógrafo Manoel Messias do Santos,  gestor da E.Ec. Juréia-Itatins na época do estudo e que contribuiu muito para o desenvolvimento deste trabalho / Foto: Luiz Carlos Libório

 

Atuação constante do Instituto Florestal em restauração
Além de ter sido publicado na Revista do Instituto Florestal, o trabalho realizado por Claudio Moura foi apresentado no VII Simpósio de Restauração Ecológica, que aconteceu de 06 a 10 de novembro do ano passado no Instituto de Botânica. O Instituto Florestal teve participação bastante relevante no evento. Na ocasião, foram apresentados 14 trabalhos envolvendo o corpo técnico da instituição. Segue abaixo a lista dos trabalhos apresentados:

  • Efeito da luz na germinação de sementes de Peltophorum dubium (Spreng.) Taub. Sérgio Roberto Garcia dos Santos, Ana Carolina Martins Sobral, Sebastiana Dutra de Souza Revoredo Silva;
  • Efeito do substrato e da temperatura na germinação de sementes de Anadenanthera falcata (Benth.) Speg. Maria de Lourdes Fontenele Gomes, Antonio da Silva, Daniela Cleide Azevedo de Abreu, Sebastiana Dutra de Souza Revoredo da Silva;
  • Seleção de indivíduos de aroeira para produção de sementes. Aparecida Juliana Martins Corrêa, Darlin Gonzalez, Gabriel de Resende Baroni,
    Francieli Alves Caldeira Saul, José Cambuim, Maiara Ribeiro Cornacini, Marcelo Augusto Mendes Alcantara, Miguel Luiz Menezes Freitas, Mario Luiz Teixeira de Moraes;
  • Formação de área de produção de sementes de Peltophorum dubium. Maiara Ribeiro Cornacini, Aparecida Juliana Martins Corrêa, Darlin Gonzalez, Gabriel de Resende Baroni, Francieli Alves Caldeira Saul,  Marcelo Augusto Mendes Alcantara, José Cambuim, Miguel Luiz Menezes Freitas, Mario Luiz Teixeira de Moraes;
  • Avaliação da deterioração de sementes de pau-brasil (Caesalpinia echinata Lam.) pelo teste de tetrazólio. Márcia Regina Oliveira Santos, Claudio José Barbedo;
  • Estoque de carbono de uma área de restauração florestal no Núcleo Capelinha “Parque Estadual do Rio Turvo”-SP. Anali Rufino Poppi, Francisca Alcivania de Melo Silva,Ocimar Jose Baptista Bim, Aline Gomes Vieira da Silva, Hélio Momberg;
  • Aspectos florísticos e fitossociológicos de uma área em processo de restauração no Parque Estadual do Turvo-SP. Hélio Momberg, Anali Rufino Poppi, Ocimar Jose Baptista Bim, Francisca Alcivania de Melo Silva, Aline Gomes Vieira da Silva;
  • Restauração passiva: uma forma promissora de recuperação ambiental em áreas de bananicultura abandonadas na região norte da Juréia, Vale do Ribeira-SP. Claudio de Moura, Waldir Mantovani;
  • Disponibilidade de mudas nativas no Vale do Ribeira e as implicações nos processos de restauração ecológica. Francisca Alcivania de  Melo Silva, Ocimar José Batista Bim, Bruna Rodrigues, Edislaine Aparecida Rosa, Anali Rufino Popi, Ludjyhana Povinski;
  • Uso potencial de espécies arbóreas em área de restauração no Parque Estadual do Rio Turvo, SP. Aline Gomes Vieira da Silva, Anali Rufino Poppi, Ocimar Jose Baptista Bim, Francisca Alcivania de Melo Silva, Hélio Momberg.
  • Restauração ecológica no mosaico do Jacupiranga – Vale do Ribeira – São Paulo SP. Ocimar José Batista Bim, Francisca Alcivania de  Melo Silva, Katia Mazzei, Roberto Ulisses Resende, Ludjyhana Povinski, Bruna Rodrigues, Anali Rufino;
  • Espécies tardias versus iniciais e a sucessão secundária na Serra da Cantareira, SP. Luiza Stehling Braga, Rafaela Dias Valeck da Silva, Bruna Vasconcelos Ferratto, Frederico Alexandre Roccia Dal Pozzo Arzolla, Gláucia Cortez Ramos de Paula, Francisco Eduardo Silva Pinto Vilela, Priscila Weingartner, Fernando Descio;
  • Sub-bosque em um teste de progênies e procedências de Eucalyptus urophylla S.T. Blake. Jose Cambuim, Silvelise Pupin, Darlin Gonzalez Zaruma, Elton Moreira de Souza; Júlio Cezar Ambrosio de Menezes, Mario Luiz Teixeira de Moraes, Miguel Luiz Menezes Freitas;
  • Caracterização de espécies no sub-bosque de um teste de progênies de Eucalyptus urophylla S.T. Blake.  Silvelise Pupin, Jose Cambuim, Darlin Ulises Gonzalez Zaruma, Cesar Henrique, Alves Seleguin, Mario Luiz Teixeira de Moraes, Miguel Luiz Menezes Freitas.

Acesse os resumos dos trabalho aqui.

 

Fotos: Luiz Carlos Liborio e Acervo da Estação Ecológica Juréia-Itatins

Mais informações: Pesquisador científico Claudio Moura – Tel. (13) 3457-9243 / 3457-9244 / 3457-9246 / 3457-9248