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23/12/17 09:00

E. Ex. Sta Rita do Passa Quatro se destaca por patrimônio florestal, histórico e científico

Área protegida celebra 68 anos e sua origem remonta a história do desenvolvimento do Estado de São Paulo

A Estação Experimental de Santa Rita do Passa Quatro é uma área protegida administrada pelo Instituto Florestal (IF), órgão da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. A unidade se destaca pelo patrimônio florestal de grande valor histórico, científico e educacional, podendo ser considerada um “Museu Vivo”. Suas belezas cênicas, clima aprazível e saudável e proximidade à sede do município, aliados aos conhecimentos histórico, cultural e científico desenvolvido ao longo de sua existência, a credenciam para o desenvolvimento de atividades de educação ambiental, lazer contemplativo e ecoturismo.

Neste dia 23 de dezembro a Estação Experimental de Santa Rita do Passa Quatro comemora 68 anos desde o decreto (nº 19.032-C, de 1949) que a transferiu para o Serviço Florestal (atual Instituto Florestal), juntamente com a Estação Experimental de Tupi (Piracicaba), iniciando período fecundo em pesquisa, experimentação e produção florestal.

Esta unidade de pesquisa teve sua origem ao final da década de 1930, quando vinculada a Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado, constituiu-se em um campo de demonstração do Departamento de Fomento da Produção do Instituto Agronômico. Mas sua história remonta o auge da economia cafeeira, algumas décadas antes.

Terreno fértil
Ao final do século XIX, no auge da cafeicultura, o município de Santa Rita do Passa Quatro teve destaque como produtor na região. Sua localização em uma altitude superior àquelas até então ocupadas pelo café em território paulista, constituia-se numa menor possibilidade de ocorrência das geadas, tornando o município como um dos mais cobiçados no período de 1887 a 1890. Outros fatores, como solos, clima, topografia e infraestrutura agrícola, também foram favoráveis.

Neste contexto, a estabilidade climática e a variedade de tipos de vegetação e ambiente, além da localização no Estado, também foram decisivas e estratégicas para a instalação de um espaço de pesquisa e experimentação que atendesse as demandas e objetivos à época.

O município apresentava desde matas exuberantes (onde se destacam enormes exemplares de jequitibás-rosa), até fitofisionomias de Cerrado (desde o campo limpo ao cerradão, além de grandes porções de Floresta Paludosa ao longo dos rios que drenam esta paisagem).

A economia cafeeira atraiu grande número de agricultores de outras regiões, em especial de imigrantes que a partir de meados do século XIX intensificaram a vinda ao então Império do Brasil, motivados pelas oportunidades. Em 1840 o Brasil já era o maior produtor de café do mundo.

Ocupação do território e expansão ferroviária
Ao final do século XIX e início do século XX, a economia cafeeira caminhava a passos largos, ocupando o território, criando oportunidades e trazendo desenvolvimento às diversas regiões do Estado: partindo do Vale do Paraíba, passando pela região da cidade de São Paulo e expandindo-se pelo nordeste do Estado, que já possuía uma infraestrutura agrícola estabelecida. Este processo de expansão e ocupação do território paulista proporcionou a expansão da malha ferroviária.

Trilhos foram estendidos pra para vários destinos do Estado, com o objetivo de escoar a produção, levando mantimentos e produtos de toda a natureza às mais longínquas regiões, além de se prestar como meio de transporte e  de comunicação para boa parte da população.

Entretanto, a expansão das ferrovias deveu-se não apenas a necessidade de escoamento da produção cafeeira (cuja exportação se dava através do porto de Santos) e pela necessidade de transporte da população e de outros bens, mas também motivada pela oferta de madeira obtida de desmatamentos que se expandiam para o norte e o oeste. A madeira era utilizada para a queima em locomotivas, dormentes, mourões e postes telegráficos ao longo das ferrovias, promovendo a comunicação entre as estações ferroviárias e os povoados que se constituíam.

Uma cultura exigente e recursos finitos
A cultura do café por suas características e exigências foi a grande motivadora do processo ocorrido neste período. Não apenas pelo suporte econômico proporcionado, mas também pelo fato de normalmente ocupar solos de boa fertilidade e de boas características físicas, regiões climáticas favoráveis sem extremos climáticos, sem secas prolongadas ou temperaturas muito altas ou baixas, tratando-se de cultura susceptível a geadas, condições aptas observadas em boa parte do interior de São Paulo.

Assim, estabelecido o cultivo em áreas de matas cuja vegetação exuberante sinalizava as boas condições de solo para a cultura, após algumas safras com o esgotamento do solo, por não dispor a época de conhecimento e tecnologia agrícola que permitisse a recuperação de sua fertilidade e sua conservação, abriam-se novas áreas para o cultivo.

As áreas de vegetação de Cerrado (identificadas à época como Campos), por tratarem-se de solos de baixa fertilidade, ácidos e arenosos de baixa retenção hídrica na camada superficial, eram simplesmente ignoradas para o cultivo.

Passado o período áureo da economia cafeeira, a partir do início do século XX, a cultura passou a declinar, não só pelo excesso de produção, como também pelo baixo preço obtido pelo produto no mercado mundial. Esta situação perdurou até que houve a quebra da bolsa de valores de Nova York, em 1929, o que levou à bancarrota inúmeros produtores rurais no Brasil que tiveram que vender suas propriedades, dividi-las ou substituir os cafezais por outras culturas ou mesmo migrar para outra atividade ou região.

Passado o ciclo da economia cafeeira, grande parte do território do Estado apresentava-se já descoberto.

Novo ciclo, novos desafios
Já na década de 1930, o Estado de São Paulo, através de seus órgãos de pesquisa e extensão rural, passou a identificar culturas promissoras, de acordo com as demandas e a vocação de cada região. Assim, os cafezais passaram a ser substituídos por culturas como arroz, milho, feijão, algodão, fumo, laranja e ocorreu o fortalecimento das usinas açucareiras, com grandes áreas cultivadas com cana-de-açúcar. A pecuária bovina também expandiu seu território, já que mesmo antes dos cafezais, já ocupava espaço na economia em várias regiões do Estado, a princípio com raças europeias, posteriormente com as zebuínas. Ainda assim a cultura cafeeira manteve a produção em algumas regiões mais favoráveis e que já dispunham de tecnologia para obter e manter produtividade em áreas já estabelecidas e próximas aos mercados consumidores.

O processo de ocupação de solos de mata manteve-se para o oeste, não só para a cultura do café, como para outras promissoras.

Este contexto explica a necessidade de intensificação da pesquisa e da experimentação a partir de 1930, com a valorização das infraestruturas agrícola e agrária estabelecidas no período anterior, inclusive a vocação às atividades rurais de boa parte da população.

Além da dificuldade de mercado imposta, outra realidade que se impunha (a São Paulo e aos demais estados e regiões que promoveram o cultivo do café em larga escala) dizia respeito à obtenção de madeira. Sua oferta diminuiu drasticamente e sua disponibilidade era em regiões cada vez mais longínquas. E o consumo aumentava rapidamente. Além da manutenção de demanda das ferrovias, setores como construção civil, urbanização, transporte, utensílios domésticos, ferramentas, olarias, padarias e mesmo aquecimento e iluminação se intensificaram no período.

Parte da população que residia no campo, principalmente nas grandes propriedades, migrou para os grandes centros. Já havia à época a preocupação com o esgotamento de nossas florestas.

Era evidente o processo de extrativismo imposto ao Pinheiro-do-Paraná (Araucaria angustifolia), espécie de ocorrência em estados brasileiros do sul e sudeste, mas com destaque ao sul, em especial no Estado do Paraná, apresentando extensas áreas de florestas nativas com predominância desta espécie. Sua madeira de uso múltiplo e seus produtos eram fornecidos para várias regiões do Brasil e exportados para vários países. A espécie era utilizada no madeiramento de casas, na fabricação de mobiliário e utensílios domésticos, caixotaria, laminados e também para obtenção de celulose para a produção de papel.

Código Florestal
Neste contexto, o Governo Federal enunciou o 1º Código Florestal Brasileiro (Decreto nº 23.793 de 1934).

O Decreto estabelecia, dentre outras disposições, a manutenção pelos proprietários rurais de 25% da área de seus imóveis com a cobertura de mata original, sendo conhecida como a quarta parte (não definindo, por outro lado, em quais partes das terras, margens dos rios ou outras, a floresta deveria ser preservada).Denotava, no entanto, já a preocupação com a preservação ambiental ao criar a figura de florestas protetoras, para garantir a saúde de nascentes, rios, lagos e áreas de risco como encostas íngremes, dunas, etc. Posteriormente, este conceito daria origem às Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Este Código faz ainda menção às florestas remanescentes e modelos, uma já clara percepção do poder público às Unidades de Conservação de Proteção Integral (Parques, Reservas Biológicas e Ecológicas, etc.) e àquelas de Uso Sustentável (Florestas Estaduais, Hortos Florestais/Experimentais, Reservas Extrativistas e demais), buscando assim estabelecer uma dinâmica de ocupação do território, de manejo e proteção aos recursos naturais, o que até então não obedecia nenhum critério ou orientação.

A necessidade de se fazer pesquisa
As Companhias Ferroviárias já vinham investindo na produção de madeira para o seu próprio consumo, pois a obtenção de madeira era de regiões cada vez mais longínquas. Assim, adquiriram grandes áreas e promoveram o plantio de espécies de rápido crescimento, com potencial para obtenção de lenha, carvão, dormentes, postes e mourões.

Dentre as que se apresentaram com grande potencial, destacaram-se as espécies do gênero Eucalyptus. Originário da Austrália, foi investigado no Brasil a partir de 1904 através do trabalho pioneiro de Edmundo Navarro de Andrade nos Hortos da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, em especial em Rio Claro, onde implantou e avaliou inúmeras espécies das mais de 600 deste gênero.

Outra lacuna, no entanto, persistia. Embora houvesse um consumo intenso de madeira, em especial de nativas, pouco se conhecia sobre as características silviculturais e ecológicas destas espécies: crescimento, comportamento e rendimento das mesmas quando implantadas em plantios homogêneos, consorciados ou heterogêneos.

Diante deste quadro, de demanda cada vez maior de consumo de madeira às mais variadas finalidades, era evidente a conveniência de identificar espécies de madeira com características similares ao Pinheiro-do-Paraná, não só para suprir a já notória escassez, mas também prevenir o esgotamento da espécie.

O Estado de São Paulo sempre foi grande consumidor, mas tradicionalmente não produtor de florestas. Além disso, havia a necessidade de promover e disseminar através de pesquisa, experimentação e extensão os conhecimentos sobre as florestas naturais e de sua composição, assim como do potencial madeireiro e de outros produtos florestais das espécies arbóreas nativas e exóticas. Neste contexto, sob coordenação do então Serviço Florestal (atual Instituto Florestal), o Estado incrementou os conhecimentos sobre implantação, manejo, exploração e conservação de florestas. Determinados espaços até então utilizados às culturas agrícolas destinando, foram destinados à pesquisa, experimentação e produção florestal. Deu-se início assim às atividades ao Horto Experimental, hoje Estação Experimental de Santa Rita do Passa Quatro.

 

Mais informações: Heverton José Ribeiro – Tel. (19) 3582-1807