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15/12/17 15:23

Pesquisa com frutas em comedouros de aves pode diminuir custos da restauração ecológica

O trabalho foi premiado no 11ª Seminário de Iniciação Científica do Instituto Florestal, realizado em agosto deste ano

Pesquisa realizada no Instituto Florestal (IF) testou o potencial da indução da dispersão de sementes por animais colocando mamão em comedouros. Para isso, foram colocadas sementes de espécies nativas na polpa da fruta. O estudo foi realizado entre 2016 e 2017 no Parque Estadual Alberto Löfgren (PEAL), na zona norte da capital paulista. Os resultados deste experimento abrem a possibilidade para a redução de custos na restauração ecológica.

A atividade humana resulta na alteração de ecossistemas, podendo causar a extinção de espécies. Contudo, a intervenção humana pode também contribuir para acelerar os processos de recuperação de áreas degradadas. Acreditando nisso, a bióloga Mariana Campagnoli desenvolveu sua pesquisa de iniciação científica no IF sob a orientação do pesquisador Alex Zamorano Antunes. O objetivo de verificar a efetividade da indução da dispersão de sementes por zoocoria.

“Zoocoria é um termo usado para a ação de dispersão de sementes pelos animais. Refere-se à ingestão de frutos com sementes, seguido de defecação ou regurgitamento em locais afastados da onde foram consumidos”, explica Mariana.

Para a realização do experimento, foram colocadas dez sementes de três espécies de árvores dentro de mamões. As espécies araçá (Psidium cattleianum), glória-da-manhã (Ipomoea purpurea) e juaí-una (Solanum concinnum) têm diferentes proporções: grande, média e pequena, respectivamente. Vale ressaltar que as sementes de mamão foram retiradas da polpa para a realização do experimento.

Os frutos, por sua vez, foram colocados em três comedouros em diferentes áreas do PEAL, unidade de conservação e sede do IF. Após cada dia de monitoramento, as sementes não encontradas dentro do fruto, sobre os comedouros ou abaixo deles foram consideradas ingeridas. Foram consumidas 90% das sementes pequenas, 57% das médias e 33% das grandes.

Durante o monitoramento, foi observada a presença de quinze espécies de aves e quatro de mamíferos visitando os comedouros. A frequência de visitação não variou entre os meses, mas foi maior entre as 8h e as 9h. O sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris) e o sabiá-barranco (Turdus leucomelas) foram os recordistas de visitas. São considerados bons dispersores.

Os dados foram a partir dos monitoramentos realizados em três dias de cada mês, entre setembro de 2016 e maio de 2017, das 7h às 12h.

A escolha das espécies
Mariana explica que as espécies de sementes testadas foram escolhidas pois produzem sementes de tamanho adequado para a ingestão pelos visitantes mais frequentes dos comedouros: as aves. Se fossem muito grandes, o tamanho impossibilitaria sua ingestão por esse animais.

O mamão foi escolhido por ser um fruto comercial, facilmente encontrado em qualquer mercado. Além disso, sua polpa é mais fácil de inspecionar a procura de sementes, após a manhã de experimento.

“Em um dos comedouros, passamos a oferecer também abacates, uma vez que a época de amadurecimento e queda dos frutos coincidiu com o período de estudo”, revela a bióloga. Os indivíduos de algumas espécies de aves, como os sabiás, apresentaram uma preferência visível pelos abacates, enquanto outras espécies, como os sanhaços e os saguis preferiram o mamão. “Resolvemos testar a preferência das espécies por um fruto ou outro pois percebemos que o comedouro era visitado em frequências muito baixas quando oferecíamos apenas o mamão. Muitos preferiam se alimentar dos frutos de abacate caídos no chão e essa situação iria atrapalhar nossa coleta de dados. Foi interessante, pois assim percebemos que algumas espécies preferem mamão e outras, abacate e como o uso de ambos os frutos seria interessante para aumentar a frequência das visitas aos comedouros”, explica Mariana. “No caso dos abacates, as sementes se perdiam no meio de tanta polpa e ficava difícil encontrá-las”, complementa.

Contribuindo com a restauração ecológica
Esta pesquisa pode auxiliar no processo de restauração ecológica pois mostra que sementes inseridas em frutos oferecidos em comedouros podem ser ingeridas pelos animais. Consequentemente, sementes de espécies de interesse podem ser dispersadas para áreas onde esteja ocorrendo o processo de restauração.

O estudo mostrou que, especificamente para a área do PEAL, as sementes menores foram ingeridas em maiores taxas. Neste caso, pode ser que a técnica funcione melhor para espécies com tamanho de sementes pequeno.

“O uso desta técnica poderia baratear o processo de restauração ecológica, já que as sementes não são tão caras quanto mudas de plantas. No entanto, muitas respostas ainda são necessárias para avaliar a real efetividade da técnica: as sementes chegam ao local de interesse? Se chegam, elas germinam? Se germinam, chegam ao estágio de plântulas?”, pondera Mariana.

IF atua na formação de cientistas
Mariana começou no Instituto em 2014. Seu interesse pelas aves só surgiu após sua entrada na instituição. Foi estagiária na instituição e teve bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para o programa de iniciação científica do IF.

Esta pesquisa foi premiada no 11ª Seminário de Iniciação Científica do Instituto Florestal, realizado em agosto deste ano, recebendo o 1º lugar como trabalho em destaque.

Mariana conclui a licenciatura em 2017 e pretende fazer mestrado na área de ecologia para seguir como pesquisadora.


Acesse o resumo da pesquisa no link:
 http://iflorestal.sp.gov.br/files/2017/09/CB_E08.pdf

Fotos: Mariana Campagnoli

Mais informações: marianacampagnoli@gmail.com