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21/10/16 14:04

V Seminário Frutos da Mata Atlântica promove produção aliada à conservação

O evento aconteceu em Registro/SP e teve a participação de cerca de 200 pessoas, entre produtores rurais, técnicos governamentais, estudantes e gestores de áreas naturais


No dia 20 de outubro, o Instituto Florestal (IF) realizou em Registro (SP) o V Seminário Frutos da Mata Atlântica: o sabor da biodiversidade. O objetivo do evento é difundir frutas comestíveis do bioma e que ainda não são comercializadas. Nesta edição do evento, foi dado destaque especial ao fruto da juçara.

A palmeira-juçara é uma espécie nativa ameaçada de extinção, principalmente por conta do corte para a extração do palmito, que mata a árvore. Já a exploração do fruto mantém a árvore viva. Com o processamento da polpa, obtém-se um produto semelhante ao açaí amazônico. Desta forma,  ela ainda pode difundir sementes e mudas da espécie por muitos anos. E a atividade pode se tornar uma fonte de renda para as comunidades, além de contribuir para a conservação do bioma.

O evento recebeu um público bastante heterogêneo de aproximadamente 200 pessoas , com a presença de produtores rurais, técnicos de órgãos públicos, estudantes universitários e gestores de unidades de conservação.

A quinta edição do Seminário foi realizada em parceria com a Associação dos ex-Bolsistas da Japan Internacional Cooperation Agency (Abjica), Fundação Florestal (FF) e Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) de Registro. As palestras aconteceram no auditório do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) de Registro.

O pesquisador aposentado do Instituto Florestal e presidente da Abjica, Guenji Yamazoe afirmou que o objetivo da realização do Seminário no município de Registro foi buscar uma maior proximidade com os agricultores familiares. Para ele, Registro é o centro dos problemas e também das soluções da juçara. As quatro edições anteriores do Seminário foram todas realizadas na sede do Instituto Florestal, em São Paulo, sempre lotando o auditório.

Floresta de pé é alternativa de renda para o agricultor
O pesquisador científico Ocimar Bim representou o Instituto Florestal durante a mesa de abertura do evento. “Estamos em uma caminhada difícil. Quem acompanha a imprensa sabe que o Instituto e a Fundação Florestal vêm sendo questionados. E este evento é uma forma que temos de mostrar nossa importância. O Seminário junta pessoas que compartilham o sonho em manter a floresta de pé. E dessa floresta é possível gerar renda e sustento para muitas famílias”, discursou.

Guenji Yamazoe, idealizador do evento, listou uma grande espécie de frutas da Mata Atlântica, como grumixama, cabeludinha e pitanga. “São frutas que remetem à infância das pessoas, porque eram plantadas nos quintais”, comentou. “Através da valorização dessas frutas, a recomposição da mata ciliar deixa de ser vista pelos agricultores como um ônus, mas como uma alternativa de renda”, reforçou.

A mesa de abertura teve ainda a presença de Paulo Sérgio Rezende, diretor do Senac de Registro, Reginaldo Bezerra da Silva, diretor da Unesp de Registro, Edison Montilha, representando a diretoria executiva da Fundação Florestal e Kazuoki Fukuzawa, presidente do Bunkyo de Registro.

As apresentações começaram com a exibição do vídeo “O ser juçara”, da Rede Juçara. Em seguida, Edson Montilha falou sobre a atuação da Fundação Florestal no Vale do Ribeira e Litoral Sul. Edson reforçou que a gestão das Unidades de Conservação do Estado de São Paulo é realizada junto ao Instituto Florestal. Apesar da região ter os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado, Edson fez um contraponto afirmando que a região é muito rica. Levou em consideração a beleza cênica, a presença de comunidades tradicionais e os serviços ecossistêmicos prestados, fatores neglicenciados.

Gilberto Ohta, produtor rural da Aliança 7B, do município de Sete Barras, apresentou suas experiências com a polpa de juçara. Mostrou técnicas de processamento e conservação desse produto, que é rico em antocianinas. “Combate os radicais livres. É importante porque rejuvenesce”, informou em tom bem humorado. Sobre a contribuição ecológica do cultivo da espécie, o produtor contou que, em parceria com a FF, já semeou 6 toneladas. E para ele ainda é pouco. “Ainda é um desafio muito grande. Você não vê as comunidades aproveitando e consumindo a fruta. E até hoje a interação entre a sociedade civil e o pode público não foi suficiente”, criticou Ohta.

Valorização local e cooperação
Fernando Silveira Franco, professor da Universidade Federal de São Carlos – Campus Sorocaba, apresentou o trabalho que realiza junto a agricultores na implementação de Sistemas Agroflorestais (SAF). Fernando explicou que a agricultura agroflorestal, diferentemente da convencional, aproveita a dinâmica da floresta, respeitando a sucessão natural e fornecendo serviços ecossistêmicos. “O nome agrofloresta vem da academia, mas a prática é um saber tradicional. Nosso trabalho de sensibilização junto aos agricultores os ajuda a relembrar aquilo que eles já faziam”, contou.

Logo após, Gabriel Menezes, do Instituto Auá de Empreendedorismo Social, ministrou palestra sobre perspectivas de mercado das frutas da Mata Atlântica. Apresentou o caso de sucesso da Rota do Cambuci, projeto integrado à Reserva da Biosfera do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo (RBCV). Trata-se de um empreendimento socioambiental de conservação da espécie que valoriza a cultura local, a agroecologia, comércio justo e turismo sustentável. O cambuci está ganhando o mercado cada vez mais. “A bola de neve se iniciou em 2009”, informou Gabriel, que acredita no sucesso da disseminação dessa fruta por ela entrar na memória afetiva das pessoas. Para ele, devemos promover uma economia através de uma identidade.

O engenheiro florestal Artur Dalton Lima falou sobre produção de frutas no SAF – Cooperafloresta e falou da importância de superar a cultura da competição para a prática da cooperação.

Em seguida, Rubens Shimizu, do Conselho Municipal de Turismo de Registro, apresentou palestra sobre o ecoturismo como estratégia de revitalização das comunidades rurais. Rubens informou que a região tem a maior concentração de agricultores familiares no Estado e defendeu a integração entre os poderes públicos e a iniciativa privada. “Queremos que nossos produtos sejam consumidos aqui”, afirmou.

No período da tarde, o pesquisador científico do IF Ocimar Bim e  o professor João Vicente Coffani Nunes, da Unesp de Registro, apresentaram experiências de restauração no Mosaico do Jacupiranga com espécies frutíferas da Mata Atlântica.  “Os projetos de restauração, além da questão ecológica, tem uma função social. Por isso é importante apoiar os empreendimentos sociais, como os viveiros comunitários, que produzem as mudas para a restauração florestal. E isso gera renda”, informou Ocimar. “O que eu tenho feito pelo Instituto Florestal é isso. Pesquisar e entender os processos de restauração ecológica e suas métricas, mas muito mais envolver as pessoas no debate sobre conservação. E esse desenvolvimento local através da produção de mudas é a grande sacada”, complementa.

Neide Araújo, da Coordenadoria de Biodiversidade e Recursos Naturais da Secretaria do Meio Ambiente de Estado de São Paulo,proferiu palestra sobre o Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável (PDRS). Trata-se de uma iniciativa realizada com financiamento do Banco Mundial e do Governo do Estado de São Paulo, que tem como objetivo principal aumentar a competitividade da agricultura familiar no Estado, melhorando simultaneamente sua sustentabilidade ambiental.

Ao final, Renato Lorza, da Fundação Florestal, moderou uma mesa redonda para discutir os entraves e perspectivas para a comercialização da polpa de juçara. Foram convidados para o debate os auditores fiscais federais agropecuários Tiago Dokonal Duarte e Juçara Aparecida André e a nutricionista da prefeitura municipal de Registro Elissa Mendes. Houve intensa participação dos agricultores.

Mesmo com a queda de luz ocorrida na região no período da tarde, o público não dispersou e acompanhou o evento até o final.

Degustação
O Seminário possibilitou ainda que os participantes obtenham a comprovação daquilo que é dito nas palestras: que a biodiversidade tem sabor. Ao longo do evento, foram servidos diversos produtos do preparados com o fruto da juçara:  suco, bolo, pão, geleia, creme e biscoito. O almoço servido aos participantes também foi preparado com receitas que usam a juçara no preparo dos pratos. A professora Dariane Beatriz Schoffen Enke, da Unesp de Registro, palestrou sobre a qualidade nutricional da polpa de juçara, que possui alta concentração de antocianina (mais que o açaí amazônico), além de ácidos graxos, proteínas, minerais como o zinco e ferro e fibras. Informou que o consumo constante melhora a memória e evita algumas doenças.

Fotos: Acervo Instituto Florestal / Paulo Muzio

Mais informações: Serviço de Comunicações Técnico-Científicas – Tel. (11) 2231-8555 / Ramal 2004